Por que cancelamos os outros?

Na quarentena foi e está sendo inevitável o aumento do tempo de permanência nas redes sociais, pelo simples fato de estarmos em casa, e pelo fato ainda de os produtores de conteúdo também estarem e produzindo ainda mais, o que aumentou também os cancelamentos. 

Muitos acreditam que o termo “cancelamento” é simplesmente deixar de seguir alguém – o que é de direito de todos e, inclusive, bem saudável deixar de seguir quem não gostamos do conteúdo, mas na verdade o termo “cancelamento” é referente à cultura do linchamento virtual oriunda das redes sociais.

A intolerância atinge hoje uma proporção que ultrapassa limites éticos e beira crimes jurídicos e dá voz e poder a todas as pessoas que possuem acesso à internet. 

Vale lembrar que na internet são milhões de pessoas com histórias diferentes e que enxergam seu conteúdo através da lente das suas próprias experiências de vida, que certamente é diferente das suas experiências.

Tem pessoas que recebem críticas pontuais e ficam sentidas a ponto de desistir do que estavam fazendo, com timidez e medo. Já outras podem reagir na mesma intensidade da crítica ou até mesmo de maneira elevada, normalmente estas possuem dificuldade de digerir, o que reflete um ego inflado. Em ambas as situações é possível identificar uma estrutura emocional frágil. 

O saudável a se fazer nesses momentos é distinguir de quem ouvir críticas. Ouça alguém que tenha importância para você, onde há respeito mútuo na relação, e essa opinião precisa ser absorvida, pensada e metabolizada. 

A crítica é uma oportunidade que você tem de dar saltos, por mais difícil que seja no momento, o tempo de digestão é um tempo de sabedoria para então evoluir. Um ego inflado significa o tamanho da fraqueza que uma pessoa carrega, ou seja, pessoas fortes não precisam de grandiosidade, sabem lidar com crítica, com fracasso, recomeçar, aceitar que tem limites – que não sabem tudo e que precisam ir atrás. A crítica, para essas pessoas, faz parte do crescimento. Mas lembre-se sempre dessa frase clichê que é muito útil: não ouça críticas construtivas de quem nunca construiu nada.

Por vezes se silenciar diante de alguns assuntos que podem ser silenciados também exige sabedoria e maturidade e, inclusive, diz muito sobre o seu senso de respeito àquela pessoa que não tolera críticas – isso desde que essas diferenças não te prejudiquem. Dentro de uma família, por exemplo, o fato de pessoas terem ideias diferentes não significa desamor, e sim respeito pelo outro que não precisa ser idêntico a você.

A pluralidade é extremamente rica para um ecossistema, seja dentro de uma empresa, uma roda de amigos ou qualquer ambiente que tenham diferentes pontos de vista, onde o respeito e valores sejam sempre preservados. O Brasil é, antes de qualquer outra coisa, entendido como um país de realidade multicultural, criado e desenvolvido a partir da mistura das mais diversas etnias, culturas e raças, com reflexos e composições advindas do mundo inteiro, o que é extremamente enriquecedor se soubermos aproveitar.

Discordar de um ponto de vista e saber ouvir críticas é um exercício diário de construção e amadurecimento pessoal. Saber ouvir o outro exige sabedoria, uma qualidade que desenvolvemos com fundamentos educacionais, nas escolas e dentro das nossas casas e, claro, com experiências e aprendizados adquiridos.

Se posicionar em relação a algo é expor uma opinião. O debate é saudável, necessário e instiga reflexões. Mas o cancelamento é algo bem diferente do que isso que estamos tratando porque se trata de um linchamento virtual.

O cancelamento é um ato coletivo e não individual, e nesse âmbito os sociólogos chamam de contra poder. Isto é, alguém que supostamente tem um poder como um influencer, e esse grupo que está cancelando se une também como um poder para fazer frente a esse outro poder, ou seja, contra poder. 

Para a pessoa cancelada os sintomas são profundos, primeiro porque uma vez atingida com ofensas e críticas em massa, os mesmos que cometeram essa prática continuam perseguindo, e assim, o alvo das críticas perde relevância em seu meio social e cultural. Estes não medem as consequências que é a carreira dessa pessoa que está em xeque, a desistência, entre outros. Os reflexos de um cancelamento para a pessoa que foi ou está sendo cancelada são bem sérios, que levam geralmente à depressão, e em alguns casos até ao suicídio.

O cancelamento não propõe debate, nem crítica embasada e sim, a destruição do outro. Por isso, para a HI-LO que defende os direitos humanos, o cancelamento precisa ser cancelado. 

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